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A última memória
READING AGE 18+
Rosa pretty
Science Fiction
ABSTRACT
Capítulo 1 – O Caderno de Mentiras
Clara sabia que a advogada estava mentindo antes mesmo de ela abrir a boca.
Era o terceiro depoimento daquela manhã no Tribunal Histórico de São Paulo. O caso era antigo, uma disputa de terras que se arrastava por décadas. A advogada – Doutora Marisa, unhas vermelhas, sorriso ensaiado – repetia a versão de seu cliente como se fosse um decreto divino. Mas Clara já havia memorizado as duzentas e quatorze páginas do processo na noite anterior.
Página 47, parágrafo 3: o cliente afirmava não estar na cidade na data do ocorrido.
Página 89, anexo B: recibo de estacionamento com a placa do carro e o horário. Na cidade.
Clara não disse nada. Não era seu papel. Seu trabalho como arquivista sênior era organizar, catalogar, garantir que nenhum documento se perdesse. Ela não era juíza, nem promotora, nem advogada. Era a memória do tribunal – a única pessoa que lia cada página, cada anexo, cada nota de rodapé.
E, por causa disso, era a única que sabia onde cada mentira morava.
A advogada terminou sua fala. O juiz agradeceu. Clara anotou em seu caderno – não o oficial, o outro – uma breve linha:
"Marisa. Processo 047-21. Mentira sobre localização do cliente. Contradição com anexo B."
O caderno tinha cento e quarenta e três páginas preenchidas. Clara começou o primeiro volume aos dezenove anos, quando descobriu que o namorado da faculdade dizia "te amo" para ela e para outras três ao mesmo tempo. Agora, aos trinta e quatro, o caderno era o seu verdadeiro diário. Não poemas, não confissões – apenas fatos. O registro frio de cada falsidade que cruzara seu caminho.
Ela fechou o caderno e guardou na bolsa. O sol da tarde entrava pelas janelas gradeadas do tribunal. Lá fora, São Paulo fervia em seu ritmo de sempre: carros, buzinas, gente correndo para lugar nenhum.
Clara não correu. Ela caminhou devagar até o ponto de ônibus, subiu no coletivo, sentou no fundo. Observou as pessoas. A mulher que falava ao celular dizendo que estava "quase chegando" – Clara sabia, pelos pontos de referência, que ela estava a pelo menos vinte minutos de distância. O homem que dizia ao filho "a gente compra amanhã" com o olhar desviado – não compraria nunca. A adolescente que jurava à amiga que não havia falado com o ex – Clara viu a mensagem no visor do celular, por acaso, e leu o nome do contato.
Mentiras. Mentiras. Mentiras.
Clara desceu no ponto da Vila Mariana. Subiu os dois lances de escada do prédio antigo. Abriu a porta do apartamento 42. Silêncio. A mesma solidão de sempre.
Havia uma caixa sobre a mesa da cozinha.
Pequena, metálica, sem remetente. Clara não esperava encomenda nenhuma. A portaria não a avisou. O porteiro, quando ela ligou, disse que ninguém tinha subido.
"Deixaram no elevador?" – ela perguntou.
"Não, moça. Não entrou nada hoje."
Clara cortou o plástico com uma faca de serra. Dentro, um dispositivo do tamanho de um smartphone antigo, mas mais pesado. Um visor de texto monocromático. Um único botão, prateado, na lateral. E um bilhete, impresso em papel comum:
"Você foi escolhida. Três mensagens. Cada uma custa uma memória. Use com sabedoria. – O Remetente"
Clara riu. Giro. Algum colega de trabalho com senso de humor duvidoso. Ou um golpe elaborado. Ela ligou o dispositivo – não havia botão de energia, apenas encostou o dedo no visor.
A tela acendeu.
"Teste de sincronização concluído. Você lembra o que comeu no café da manhã do dia 12 de março de 2013?"
Clara franziu a testa. Doze de março de dois mil e treze. Ela tinha vinte e um anos. Morava numa república. O café da manhã era sempre a mesma coisa.
Torrada com geléia de morango. Caneca amarela com um desenho de gato. Leite com Nescau.
Ela não precisou pensar. A memória veio inteira, colorida, nítida.
O dispositivo vibrou.
"Deseja enviar uma mensagem para aquele dia?"
Clara largou o aparelho na mesa como se fosse veneno. Três mensagens. Cada uma custa uma memória. Não era possível. Não era real.
Ela guardou o dispositivo na gaveta da escrivaninha, junto com contas antigas e manuais de eletrodoméstico. Tomou um banho. Fez um miojo. Assistiu a um episódio de uma série que não prendeu sua atenção.
Às onze da noite, antes de dormir, ela abriu a gaveta novamente.
A máquina ainda estava lá. A tela mostrava a mesma mensagem:
"Deseja enviar uma mensagem para aquele dia?"
Clara fechou a gaveta.
Apagou a luz.
Na escuridão, o pensamento veio – indesejado, inevitável:
E se fosse verdade?
Capítulo 2 – O Primeiro Envio
Clara não dormiu bem. Acordou três vezes durante a noite, cada vez com a sensação de que alguém estava no quarto. Não havia ninguém. A máquina continuava na gaveta.
Pela manhã, ela fez o que sempre fazia diante do impossível: buscou a lógica. Pesquisou no celular por "dispositivo que envia mensagens ao passado", "máquina do tempo texto", "golpe nova tecnologia". Nada. Apenas fóruns de ficção científica e teorias.